Suelen Goulart até hoje não entende como alguém conseguiu roubar as senhas de suas contas no Orkut e no MSN. “Minha suspeita é de que elas foram obtidas em uma lan house que eu usei, mas não sei ao certo”, conta. Por 15 dias, Suelen teve de conviver com os riscos de ter seus dados pessoais revelados a um estranho e as complicações decorrentes de o ladrão ter assumido sua personalidade, mantendo conversas nas redes como se fosse ela. A enfermeira desconfia de que o ladrão era uma mulher, por causa do conteúdo dos recados deixados para homens desconhecidos do seu círculo de amizades.

Para recuperar a identidade virtual, Suelen criou contas novas nas redes sociais e começou a mandar mensagens para outras pessoas avisando do roubo. Em uma delas, disse que tinha encontrado uma forma de rastrear quem estava usando sua senha indevidamente. A estratégia deu certo. “A pessoa me mandou um recado dizendo que eu não precisava mais chorar e me passou a senha do perfil do Orkut”, diz Suelen. A conta do MSN foi perdida para sempre. “Hoje, tomo mais cuidado com as minhas informações”, pondera.

Por sorte, o episódio não teve consequências mais graves. Apesar da dor de cabeça, Suelen não teve nenhum prejuízo material com o roubo. Mas as redes sociais estão se tornando ambientes cada vez mais perigosos, com a participação crescente de quadrilhas de criminosos digitais.

Relatório da companhia inglesa Sophos, especializada em segurança digital, mostra que, em 2010, de cada cinco perfis postados em redes como Facebook, Orkut e Twitter, dois receberam mensagens contaminadas capazes de ocasionar ataques ao computador. O volume foi 90% maior que o registrado em 2009. O que atrai os vândalos digitais é a popularidade das redes. Só no Facebook são quase 600 milhões de perfis.

Para José Matias, gerente de suporte técnico para a América Latina da McAfee, companhia de segurança controlada pela Intel, a chegada dos criminosos às redes sociais é um movimento semelhante ao que ocorre no mundo real. “Eles procuram sempre o local que é considerado mais fácil para cometer seus delitos”, diz.

O Orkut, controlado pelo Google, é o site mais visado pelos ataques no Brasil, diz Eduardo Godinho, gerente técnico da Trend Micro, empresa de segurança digital. O Facebook vem logo atrás e pode assumir a posição neste ano. Entre as ameaças globais, o Twitter lidera, seguido pelo Facebook. Procurado pelo Valor, o Google informou que remove os conteúdos ilegais identificados no Orkut, mas não exerce controle prévio sobre o que seus usuários publicam “nem fará o papel de polícia ou de juiz”. O Facebook e o Twitter não quiseram se pronunciar.

A migração das quadrilhas para as redes de relacionamento social é explicada, em parte, pela possibilidade de fazer ataques mais difíceis de detectar, afirma Eduardo Abreu, líder de segurança da IBM. Como as redes reúnem muitas funcionalidades, o arsenal dos bandidos digitais também é maior, explica o especialista. “A confiança que as pessoas têm em seus contatos virtuais também facilita os ataques”, diz André Carraretto, gerente de engenharia de sistema da Symantec, companhia de segurança de redes.

Trata-se de um efeito psicológico. Ao se relacionar com amigos ou conhecidos, as pessoas criam uma sensação de segurança que nem sempre é real, diz Godinho, da Trend Micro. Com a guarda baixa, os internautas ficam suscetíveis a clicar nos links para vídeos, fotos e notícias incluídos nas mensagens, sem desconfiar do conteúdo.

 

A técnica é a mesma usada há muito tempo em e-mails e sites. O objetivo é a instalação de programas espiões que coletam dados pessoais e bancários, que são vendidos em fóruns no submundo da internet. Um número de cartão de crédito pode ser vendido por valores entre US$ 2 e US$ 700, dependendo do saldo disponível, segundo a empresa espanhola de segurança Panda.

Um novo método está se disseminando rapidamente. É o envio de enquetes falsas prometendo prêmios aos participantes. Os prêmios, claro, não existem, mas os criminosos ganham dinheiro ao gerar tráfego para um site, que pode vender cotas de publicidade mais caras com a audiência falsa. Na prática, as fraudes ocorrem nas duas pontas do esquema.

Fazer a distinção entre mensagens legítimas e contaminadas tem se ficado mais difícil devido ao uso dos chamados encurtadores de links. Essas ferramentas, que reduzem o número de caracteres de um endereço eletrônico, surgiram na esteira do Twitter. Com elas, é quase impossível saber o verdadeiro destino de um link – em vez do conteúdo desejado, o usuário pode ser levado a um vírus ou outro tipo de fraude.

Matias, da McAfee, diz que as empresas não podem ser responsabilizadas pelos problemas. “Elas estão fazendo o trabalho delas, de oferecer meios de comunicação para as pessoas”, diz. Os internautas, afirma, também precisam se preocupar com o assunto.

As ameaças não pairam apenas sobre o internauta padrão. Mesmo celebridades já passaram por situações delicadas. Há duas semanas, uma falha no sistema do Facebook permitiu que mensagens de terceiros fossem publicadas nas páginas do fundador do site, Mark Zuckerberg, e do presidente da França, Nicolas Sarkozy. As brincadeiras foram inofensivas, mas dá para imaginar o que se pode fazer em nome de personalidades influentes e chefes de Estado.

Fonte: Valor Econômico em 07/02/2011

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