Declarações infelizes de CEO e acordo que corrompe neutralidade da rede marcam fim de uma era; empresa esqueceu seu lema de não fazer o mal.

Você sabia da existência de umas coisas chamadas de “carro”? E que eu posso ir até você, lhe acertar um tiro, pegar um desses carros e, em poucos minutos, estar a quilômetros de distância da cena do crime? Seria bem difícil que você me encontrasse. E por que não roubar um banco e usar esse mesmo veículo para a minha fuga?

Esses “carros”, e umas outras coisas chamadas de “ruas” e “estradas”, são muito perigosos. Se caírem em mãos erradas, toda espécie de ação covarde poderá ser cometida, e é por isso que eu digo que devemos saber exatamente onde essas pessoas estão com seus carros. O tempo todo.

O que precisamos é de um GPS inviolável, que seja instalado em todo veículo e mande às autoridades informações sobre a localização do carro. E, para a regra ser cumprida, pesadas multas ou sentenças de prisão serão incididas sobre os cidadãos que não respeitarem tal obrigação. Para garantirmos a segurança de nossa sociedade, não podemos ter motoristas anônimos ou veículos não identificados.

A Google e o resto
Pense agora, só por um momento, que eu estava falando sério; você me consideraria um louco. Agora, veja o que Eric Schmidt, CEO da Google, sugeriu recentemente:

“Em um mundo de ameaças assíncronas, é muito perigoso que não haja alguma forma de identificar o usuário”, disse, para mais tarde completar que “a privacidade não é a mesma coisa que anonimato”. Para o executivo, “é muito importante que não só a Google, mas todo mundo respeite a privacidade das pessoas. Ela tem esse direito; é algo normal e natural. É a forma correta de fazer coisas”.

É incrível o modo como Schmidt explicou a situação: “Não só a Google, mas todo mundo…”. Quer dizer, não foi um “todos nós”. Primeiro vem o Google e, depois, “todo mundo”.

Em todo caso, o que o chefe da Google está defendendo é que o anonimato não deveria existir na Internet e por “ameaças assíncronas”, presumo que ele queira dizer “comportamento indesejado e/ou ilegal”, cujas causas e efeitos estejam bem separados no tempo.

Se isso foi realmente o pensamento de Schmidt, então ele não só está sugerindo que a Internet esteja disponível apenas para usuários autenticados, mas que suas atividades sejam monitoradas e gravadas, pois, de outra forma, a autenticação será insuficiente para resolver os problemas das “ameaças assíncronas”.

Big Brother
No passado, eu o admirava por sua perspicácia empresarial (abandonar a Novell pela Google foi uma jogada de mestre), mas, com esses comentários, só posso concluir uma coisa: o senhor Schmidt perdeu a cabeça.

“Se você pretende cometer um terrível crime na Internet, não é óbvio que será capaz de fazê-lo anonimamente. Em nossa sociedade, não há um sistema que lhe permita fazer isso. Juízes, por exemplo, insistirão em desmascará-lo. Portanto, absoluto anonimato levaria nossas autoridades e nossa sociedade a difíceis decisões e eu acredito que nós não queremos isso”.

Schmidt deve ter querido dizer que “é óbvio que você não deveria ser capaz de fazê-lo anonimamente”. Logo, vamos supor que tudo não passou de um pequeno erro na hora de escolher as palavras certas, já que, se o que ele falou, expressou exatamente o seu pensamento, estaríamos tendo uma discussão bem diferente.

Aqui o executivo está usando o argumento de que há um bicho-papão embaixo de cada cama; ele está supondo que os “terríveis crimes” são prováveis consequências de um pressuposto anonimato total, como se este fosse facilmente obtido e que os terríveis crimes fossem comuns.

A verdade é que os grandes delitos são raros e qualquer um que seja capaz de cometê-los é, em geral, capaz de contornar os limites que a autenticação representa, a partir, por exemplo, de um simples roubo da credencial de outra pessoa.

O poder corrompe
Essa é só a primeira parte de meu protesto quanto à posição do executivo da Google. Para ser sincero, há tanto o que comentar que é difícil decidir por onde começar.

Por exemplo, imaginemos que a autenticação seria obtida a partir de algum sistema federal envolvendo instituições de “confiança” como bancos. O usuário que não tivesse essa credencial teria seu acesso a sites ou serviços severamente limitado. Você sabe, isso não seria de graça, todos nós teríamos que pagar mais… É exatamente o que precisamos, não é?

Mas, por alguns segundos, vamos suspender nosso ceticismo quanto a nossa capacidade de completar seis tarefas impossíveis antes do desjejum. Digamos que, de alguma maneira, consigamos implantar um sistema de autenticação que usaríamos para monitorar todas as atividades online e, assim, as pessoas que tentassem cometer “terríveis crimes” seriam devidamente punidas.

Nesse caso, que instituição do governo teria acesso a esses dados? Honestamente, eu não confio na ética de nenhuma delas a longo prazo. Não se esqueçam do velho ditado: o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Ter esse nível de controle e percepção sobre o modo como a Internet é usada seria aumentar ainda mais o poder que o governo já tem.

Todo governo autoritário teria uma importante arma se tivesse o acesso total sobre os dados da Internet, e mesmo um governo democrático encontraria infinitas razões para colocar suas mãos sobre essas informações, em nome, por exemplo, da “segurança nacional”.

Ilusão
Bem, deixemos de imaginar e encaremos a realidade: Meus amigos, estamos presenciando, infelizmente, o fim de uma era. Uma era em que podíamos acreditar que a Google se manteria fiel ao seu lema de “não fazer o mal”.

O difícil fardo do mundo dos negócios é que a extensa maioria das corporações está condenada a perseguir o lucro com um zelo psicótico, ignorando qualquer sentimento mais nobre de um ou de todos os seus gestores.

Quanto ao Google, a opinião de Schmidt mostra claramente que ele não acredita nessa história de “não fazer o mal”. Não, pelo menos, do mesmo modo que o público entende a frase.

Adicione a essa afirmações o fato de que a companhia de Mountain View e a Verizon acabaram de admitir publicamente o seu odioso negócio para corromper a neutralidade da rede. Destaco que a gigante das buscas está se igualando aos outros conglomerados, transformando-se em farinha do mesmo saco: uma companhia sem alma, insensível, egoísta, sem vergonha, que só enxerga o fim e ignora os meios.

É uma pena. Adorávamos a ideia de que uma empresa grande como a Google poderia empunhar uma bandeira branca da ética enquanto galgava os degraus mais altos do sucesso. Queríamos que uma das maiores corporações do mundo tivesse um coração batendo em seu peito e uma alma poética. Parece-me que tudo não passou de uma ilusão; estávamos terrivelmente errados.

Fonte: Network World/EUA, IDG Now! Brasil

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